Tem um ditado popular que diz que “o fruto não cai longe do pé”. Nesse mês onde se comemora o dia das crianças, pensamos imediatamente em pais e filhos, pois filhos são frutos de um homem e uma mulher, um espermatozoide que fecundou um óvulo. Portanto temos frutos que deveriam ser parecidos com esses pais, pois possuem seus genes e características físicas, intelectuais e emocionais. Entretanto, não raras vezes, vemos que isso não ocorre

Quando vemos pais que têm apenas um filho, ou, mais notadamente, mais de um filho, e constatamos que há muitas diferenças que se mostram entre a educação que receberam e o meio ambiente em que foram criados, podemos pensar no ditado popular. Sim, um abacateiro somente produz abacates. Se eles amadurecerem e caírem do pé, serão abacates maduros e saborosos ao paladar. Há variantes: o abacate pode ser retirado por alguém antes que esteja maduro, e nesse caso seu sabor poderá ser bom, mas não delicioso; ele pode cair do pé precipitado por uma ventania ou chuva forte, poderá ser bicado por aves antes de cair ao solo; por último, poderá amadurecer, cair, rolar terreno abaixo e parar bem longe da árvore-mãe. Nesse último caso temos também duas alternativas. Poderá estar no ponto de amadurecimento e levar seu sabor para muitos paladares, ou poderá não ser apanhado ou visto, e irá apodrecer sem ter levado sua suculência a nenhuma boca.

Durante a vida vemos filhos que se desenvolvem em uma família com determinados princípios e direcionamentos, e eles se desviam, saindo parcial ou totalmente do padrão familiar. Rapidamente nos apressamos em julgar, dizendo que os pais não souberam educar, que foram condescendentes ou ausentes. A verdade pode ser bem diferente pois, sim, um fruto pode cair do pé mas dele se distanciar. Continuará sendo o mesmo fruto, da mesma árvore, mas o que devolve para o mundo é bem diferente do que a árvore-mãe produziu. São filhos que se deixaram levar por paixões sensoriais ou humanas, amores por pessoas, substâncias, carreiras, crenças ou dogmas. Filhos que optaram por sair de baixo da sombra dos galhos, pensando estar adquirindo independência, sem se aperceberem que, na verdade, estavam se afastando da própria essência, e assim se perdendo de si mesmos.

O inverso também pode acontecer, que de uma árvore-mãe adoecida e prestes a morrer ainda um fruto bom nasça. Ele poderá cair e ficar perto do tronco ao cair, como que em uma reverência a quem lhe deu a vida. Ou poderá também rolar para longe levando a essência saudável da árvore. Talvez tenha sido atacado pelos mesmos fungos que adoeceram a árvore-mãe, e irá definhar perto ou longe dela.

 

Talvez você ache essas reflexões para o dia da criança um tanto quanto carregadas de tintas escuras, mas não é essa a minha pretensão. Tal e qual a árvore-mãe, os pais devem saber que geram frutos, mas que há um momento em que os frutos caem do pé e vão viver seus destinos. O cordão umbilical precisa ser, uma vez mais, cortado. Eles seguirão em frente, com seus próprios ideais, anseios, metas e certezas, e os pais assistem, certos de terem feito o melhor. A partir do momento em que não mais estão ligados fisicamente à árvore-mãe, a responsabilidade é única e exclusiva deles. Entretanto, dentro dos filhos está a semente do abacateiro, sempre pronta para penetrar no solo e produzir outra árvore, e outros frutos.